Quando receber é mais do que uma arte

13 de Junho de 2017

"Mi casa es sua casa." Entre essa frase de boas-vindas a quem chega em seu lar e a partida dos convidados, para uma confraternização ou estadia, muitas situações podem acontecer, várias delas boas e outras nem tanto. Receber é estar disponível para alterar a rotina dos moradores da casa ou apartamento, é rever amigos ou familiares e reorganizar o local escolhendo as lembranças que ficarão na memória de quem ficou.

Escolher o cardápio, a decoração, os objetos que ficarão na mesa são preocupações objetivas que podem ser solucionadas com uma organização prévia do/a anfitrão/ã ou recorrendo ao auxílio de profissionais na "arte de receber". Mas a parte subjetiva está no plano imaterial e depende da sensibilidade de cada um para manter um clima confortável, descontraído, sem tanto rigor, se a situação não pedir.

No Brasil, a sala de "estar", ou seja, de passagem, ou os salões, tornaram-se os locais "públicos" dentro do ambiente familiar, após a chegada da corte portuguesa no Brasil, no início do século XIX, e ampliou as possibilidades de socialização, já que antes as reuniões entre amigos, especialmente, era realizada em lugares públicos, restaurantes e cafeterias. Apesar da "naturalização" da mulher como a anfitriã, as trocas de informações, referências literárias e musicais decorrentes das reuniões impulsionaram a inserção das brasileiras nas esferas públicas, com destaque para a imprensa.

Entre as mulheres que se destacaram nessa "arte", é impossível não citar a cuiabana Laurinda Santos Lobo, que residia em um casarão no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, na década de 1920, e ficou conhecida como uma das "mecenas" da cidade, que organizava reuniões com a presença de políticos, artistas, entre eles, Tarsila do Amaral, e músicos/compositores como Heitor Villa Lobos. Hoje, a casa de Laurinda é o "Parque das Ruínas", um centro cultural que ainda celebra os encontros e tem cinema, restaurante, e uma vista espetacular, em 360 graus, da cidade.

 Vista lateral do prédio que recebeu estrutras metálicas e de vidro para a sustentação da casa

Apesar de ter vivido pouco tempo em Cuiabá, Laurinda carregou com ela para o Rio de Janeiro uma faceta conhecida dos cuiabanos: a receptividade. Quando os cuiabanos recebem os visitantes ou hóspedes, o primeiro cômodo a que são levados é para a cozinha, como os italianos e seus descendentes que prezam a sociabilidade acompanhada de comes e bebes. A cidade cresceu, os imóveis foram adaptados para a recepção, um exemplo é a varanda que ganha mais atenção a cada dia, mas alguns costumes são repassados por serem "rituais" familiares.

                                           Reprodução de um retrato de Laurinda em uma das janelas do prédio

Vista para a Urca, Pão de Açúcar e bairro de Santa Teresa e Botafogo

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